A vida eh bege aos 40

(texto que escrevi pro aniversario da minha amiga Evita q que de engracadinho que ficou achei q vale a pena publicar)


Quero avisar desde ja que porque serei 40, algumas coisinhas vao ter que mudar. Fica aqui entao pra os desavisados, que a partir de entao, nao mais sera permitido fazer do chao um palco de safadezas pra descaradas horizontalias, bolos de gente, pilhas de carne humana como nas antigas. Sugiro aos convidados se manterem na posicao vertical durante toda a festa, que agora passa a se chamar reuniao e tem horario pra comecar compativel com os de gente grande que trabalha e cumpre seus comprimissos no dia seguinte, mesmo que seja simplesmente para ir a missa das 9, e que ainda mais improtante, tem na outra ponta, hora pra terminar, pondo fim e essa imprevisibilidade infanto irresponsavel dos tempos passados. Nem percam tempo trazendo oculos de sol pra tentar curtir essa coisa piegas de ver o dia amanhacer, ir tomar café na padaria da esquina e encontrar a escoria social que se junta nessas rodas, que eu um dia tambem fiz parte orgulhosamente, mas que agora, 40 que sou, despreso enfaticamente. Ahhhh, como e bom ter as coisas organizadas; tudo no seu tempo; nada de surpresas, desvios de rota desses que sempre acabavam me levando pra o bar mais trash, da cidade mais trash da regiao; ou a uma caminhada forcada pela rodovia com sol na cabeca ao meio dia, vestindo meu pretinho basico, olhos borrados, bolsinha tambem preta na mao e pronta pra outra caipirinha na rodoviaria local com os amigos recem chegados de Itirapina. O uso de drogas ilicitas nao sera permitido. Eu e que nao quero mais, nessa idade, compartilhar com ilicitudes. Pessoas que se prezam andam de acordo com a lei; e tem mais; nao ha motivo nenhum pra disvirtuar a mente, quando se tem amigos tao preciosos por perto e quando podemos aproveitar o momento pra saber mais dos planos de cada um e descutir as metas de cada um para 2009. O consumo de alcool sera tolerado em acordo com a nova legislacao, o que confesso me deixa muito mais tranquila so de pensar que no dia seguinte nao vou ter surpresinhas desagradaveis como que um dos convidados tenha atropelado uma mimosa na estrada, ou outro que tenha tentado visitar o Parque dos Saltos por entre as arvores, sem descer do carro. Esses meus caracois, esses caracois da minha juba; ahhhh, quantas historias eu guardo debaixo dos caracois da minha juba. E agora, cada fio branco me conta uma dessas alcoolicas memorias do passado que eu quero esquecer: os tornozelos torcidos, minhas dietas mensais de abacaxi … com cachaca …, vexames no Clube de Campo, abeieiro, cara inchada, e esse buraquinho aqui na cara de quando ralei ela no asfalto; posso mostrar se quiserem. Tudo por causa da bebida que me consumia. Enfim, passado nao mais compativel com 40. Sera muito bom acordar na manha seguinte sem surpresas, figado tinindo, nada de agulhas rombudas, pari parova e outras tantas receitinhas infaliveis que tanto falharam, quando o mais certo seria ter parado antes com esse demonio dentro do copo que sempre fica falando “keep walking” e que me perseguiu por anos. E bom chegar aqui aos 40. So neles voce pode vestir camisa de drops colorido e sair por ai sem ligar pra o que os outros falam. So nao sei como cheguei aqui com essa cara de muleca, menina Eva. Os 4o serao um recomeco; posso sentir as mudancas em meu corpo, coisas incriveis como poder sentar no vaso sanitario e realmente fazer coco, expelir algo solido, palpavel e escutar o barulhinho tchibum, que tilinta como cristal nos meus ouvidos. O tchibum que me despertou pra uma nova vida, o tchibum que me acordou pra a descencia, pra retidao e que me abriu pra experimentar tantas outras coisas, nem homem, nem mulher, nem falo, nem pastelzinho de pelo; nada dessas coisas antigas que eu ja me esbaldei; mas algo novo e que quero compartilhar com voces nesse aniversario de 40. Nao vai mais ter bolo de chocolate babento nao. Nos 40 vou fazer, euzinha gheller, um bolo bem branco, modelo pao de lo, recheado de creme, regado ao leite de coco e com muito marshmallow de cobertura. E eu prometo que depois de tantos anos eu vou acertar pois aprendi que o fermento vai antes de assar, na massa, e nao depois, como cobertura. Espero voces na minha reuniao.

Politica para quem precisa

Por heranca de meu pai, politica sempre foi assunto do meu interesse, apesar do pouco talento que tenho pra faze-la na vida real. Esperei tao ansiosamente os 16 pra poder tirar meu titulo de eleitor, quanto os 18 pra poder pilotar sem fugir da policia. Me orgulho de minhas escolhas politicas desde a epoca que lotava meu fusquinha com muita bebida e material de campanha do Mario Covas pra panfletar naquelas noites teoricamente de lei seca, em vesperas de eleicao; ou dos incontaveis fins de semana em que nos reuniamos, eu e meus amigos loucos e meio nerds, pra encher a lata, discutir politica ate o sol nascer, enlouquecer, acreditar de verdade em mudar o mundo, invadir cemiterios e ouvir The Doors, ao inves de ir atras de garotas gostosas.

Lembro de uma vez, ainda muleke, que me enfiei numa multidao entre quadris e cinturas pra chegar perto do Covas porque queria dizer algo a ele. Tirei vantagen do meu tamanho pra consegir chegar la, apertar sua mao e dizer: “confio muito no senhor”. Recebi um “muito obrigado” em retorno; mas me lembro que senti em seu olhar uma falta de sintonia, como de quem nao poderia imaginar que aquela crianca ali, tinha muito mais conviccoes que grande parte daquela massa. Ele era meu idolo politico. Sentia verdade em seu discurso e falta de medo em dizer a verdade, o que eh algo raro em politica.

Sempre acreditei mo meu faro, e ao longo de anos atravessei inumeras vezes, quase sozinho, varios campos de batalhas politicas, enfrentando muitos dos meus amigos PTxiitas, desde aquela epoca em que o PT, ainda prematuro e longe do poder, enganava com mais facilidade. Nunca fui enganado. Nao sofri da decepcao que muitos tiveram depois que a ignorancia chegou ao poder, fez cabelo, barba, bigode e outras cositas mas. Sempre duvidei das solucoes faceis, do fora FMI, das criticas vazias sem projeto paralelo ou perpendicular, ou do “sou contra tudo” sem saber ao certo do que “sou a favor”. O pouco do respeito que tinha pelo PT como oposicao, e que lhe valeram alguns dos meus votos para o legislativo, brochou quando me liguei que a oposicao que eles praticavam era calcada mais na inveja daqueles que realmente tinham algum projeto e faziam, de fato, algo pelo pais, ou na politca do quanto pior, melhor, simplesmente visando seu  projeto proprio de escalada ao poder.

 O PT, por sua visao equivocada do mundo e por seu projeto obscuro de poder, representou e representa o maior obstaculo as grandes mudancas que o pais ainda necessita para dar os primeiros passos rumo ao mundo moderno. Felizmente nao conseguiram barrar –apesar de ainda sonharem diariamente com isso – projetos como o da lei de responsabilidade fiscal, que o PT inteiro votou contra no primeiro governo de FHC, alem de outros tantos avancos que acabaram por conduzir o pais para uma politica responsavel de gastos publicos, estabilizacao financeira e fortalecimento das instituicoes democraticas; progressos que, ironicamente, os ignorantes do PT desfrutam hoje dos louros e ainda os tomam pra si, com maior cara de pau.

Me irrito diariamente quando leio as noticias do Brasil e dessa gang que esta no poder. Nao da para culpa-los pelas mazelas atuais de um pais que foi fodido e estuprado desde que nasceu, condicao que nos fez crescer acostumados com a robalheira geral, com essa meia duzia que manda e desmanda em beneficio proprio, se lixando pras pessoas. Mas o PT e esse presidente ignorante que ai esta, inauguraram outras modalidades que acabam por me incomodar ainda mais que as anteriores. Tenho nauseas com essa perda de tempo, essa falta de projeto e esse eterno discurso vazio de palanque, de uma realidade paralela, como se os problemas nao fossem com eles. A que serve esse governo que em 6 anos so se ergueu em cima dos sucessos que tanto antes criticou e agora os usufrui; que criou o maior programa oficial de compra de votos do planeta disfarcado de programa social, que nao ajuda ninguem a sair, a longo prazo, efetivamente da pobreza, senao pela ajuda continua e sem fim; esse governo que nao apenas mente, mas mente mais do que sempre se mentiu, que loteia o governo como nunca antes se fez, substituindo milhares de tecnicos eficientes por companheiros com a mesma mentalidade atrasada, que viola segredos bancarios, e que organizou, nao por minhas palavras,  “a maior e mais sofisticada quadrilha” pra assaltar os cofres publicos com o unico objetivo de se perpetuar no poder.

Mas eh esse populismo dissimulado que mais me tira do serio. Lula e sua gang sao pos graduados e deixam Maluf comendo poeira no quesito cara de pau. Lula com seu futeboles fluente levanta as massas colocando a ignorancia no pedestal para ser adorada; repete dez vezes a mesma mentira com tamanha crenca que ela acaba por ganhar roupa de verdade; nega fatos obvios, se esconde da verdade atras das colunas do Alvorada pra deixar a poeira baixar e voltar, depois, com cara de santo pra distorcer, fazer piadinhas, fingir que esta tudo bem e surfar na popularidade conquistada a troco de muita sorte, de uma heranca bendita e de um carisma baseado na exacerbacao da ignorancia; o que de verdade tem tudo a ver com o imenso Brasil de iletrados, analfabetos e sem cultura. A vida as vezes eh injusta ao permitir que um governo como este, tao vago, tenha tido tanta sorte de existir num periodo onde o mundo consumiu aco, soja e petroleo como nunca; e que mesmo agora, diante da maior crise financeira mundial, nao faz o pais sangrar como ocorreu nas crises dos anos noventa. Dito isso, temos a sorte de que Lula e sua gang tenham esquecido tudo o que falaram, pregaram e gritaram aos quatro cantos; e que mantiveram, apesar de tudo o que foi destruido, ao menos a economia nos trilhos rezando a mesma cartilha do governo anterior, coisa que eles jamais admitiriam. Espero que por sorte, e talvez seja apenas com isso que posso contar, que esse governo seja destituido pelo voto nas proximas eleicoes, e que um novo padrao de gente com propostas reais tenham condicoes de fazer algo por este pais tao abandonado, tao sem lenco nem documento.

E para concluir, fico feliz em saber que depois de tantos anos, seja quase unanime a opiniao de que aquele cara que era meu Idolo politico, era realmente uma pessoa excepcional. Eh bom saber que eu estava com a razao.

Acho q vou escrever mais sobre politica.

 

 

 

 

 

Amar eh se enfraquecer?

Ferias; manha de sabado perfeita pra limpar as teias de aranha desse blog; abrir as janelas, deixar a luz do sol entrar e matar os acaros; botar um quadro colorido na parede e ajeitar os outros que o tempo tirou do prumo.

Cheguei em casa de madrugada pos trampo e das duas tacas de vinho que geralmente bebemos depois que os clientes xispam. Tentei ter um dia cheio pra preencher o vazio da partida de uma amigona que esteve aqui por um mes e que a Aerolineas carregou dois dias atras. Liguei pra Francesca, Italiana que trombei recentemente e que o santo bateu de primeira. Nos encontramos pra um sanduiche, que ela pediu retirar os tomates, como boa italiana. Falamos da vida, programamos uma caminhada pela praia e terminamos, Brasileiros e Italianos com um café, um expresso sem leite, ao contrario do que eh de costume aqui entre os anglo-saxoes sem gosto algum pra comer.

Liguei pra uma outra amiga pelo meu antigo prazer de estar rodeado de mulheres. Sabia que meus dedos no teclado agiam contra um comodismo, um vicio anti-social que as vezes me invade, que faz sentir que eu me basto; uma preguica em cultivar gente nova ao redor; um costume de ser procurado ao invez de procurar, de ser lambido sem esforco algum. Fui encontrar Paola, uma peruana engracadissima e Dee, uma inglesa caricata super fugura; pessoas da mais alta qualidade humana que cruzaram o meu caminho e que dividem atualmente comigo as tarefas de servir clientes com um sorriso falso, carregar vitelas e cabritos da cozinha pra mesas.

Nos encontramos do outro lado da ponte, deitamos no parque, na grama, um na barriga do outro; falamos sobre trabalho, rachamos o bico com o video de uma modelo que cai duas veses na passarela no you-tube ate que atolamos inevitavelmente em uma historia de amor rompida, frustrada,  que a Inglesa esta amassando: a historia que me motivou a escrever o post. Uma historia que se liga a muitos dos meus pensamentos e aprendizados do momento, nessa continua busca de mim. Minhas impressoes sobre o amor. Qual a cor da vida de quem ama? Qual a cor da minha vida? Quem ama sempre se fode?

Estou ai no caminho pra responder essas perguntas e entender onde eu me encaixo no meio dessa baba, dessas lagrimas de sangue ou se vim mesmo pra olhar tudo isso de longe. Um ano aqui tentando jogar a vida em dupla, dormindo e acordando “de dois” e ainda me falta uma resposta. Entender porque o amor eh assunto tao popular, tantas cancoes de desespero e de gozo inspiradas nele; esse amor humano, rasgado do fundo da alma, essa eterna falta, esse buraco negro, essa ansia de completude no outro, essa sobrevida sofrega sem ele, essa vontade de nao viver, esse drama, se trancar no quarto, fechar as cortinas, chorar e cortar os pulsos. Eu aqui, ao contrario, com esse auto-amor exacerbado, essa capacidade de andar soh, de estar bem soh, de gostar de quem me gosta e de esquecer quem me despreza; essa falta de drama, essa linha reta, essa palidez, essa aceitacao dos fatos, da fraqueza e incompletude humana, dessa minha incompletude completa, da minha vontade de voar, de ser independente emocional, de ser livre e de fazer o que bem quiser. Esse eh o contraste, esse eh o contraste que certas veses me faz sentir tao anomalo. Porque nao amo assim?

Minhas certezas parecem sempre vir em ciclos. Comecam com uma certeza intuitiva vindas das tripas, uma certeza adolescente que tudo sabe, apontando com seta vermelha o norte, o caminho a seguir. A certeza entao eh bombardeada pelas outras tantas inumeras possibilidades e entao cambaleia, enfraquece, se poe no canto timida, e depois de um tempo entao se abre pras outras possibilidades pra ser testada; entra no campo de batalha sem protecao, se lanca aberta pra outros caminhos e, longe da sua seguranca facil e comoda, encontra toda serie de situacoes desconhecidas pra enfrentar na busca do santo gral de sua verdade. Seu avanco eh aparentemente mais lento que o da maioria, que em geral mostram ter certeza de tudo. Mas minha certeza sabe que quando ela passar pelo campo de batalha e sacar tudo, podera entao repousar tranquila porque tera encontrado uma parte de si mesma; uma peca a mais do quebra cabecas. 

Minha certeza primitiva a respeito desse tema; minha intuicao sempre foram pro lado de que eu sou um desses tipos  que preferem a autosuficiencia ao trabalho de dividir tudo, de confrontar pontos de vista e de pensar no outro alem de em si mesmo; ou entao, em ultima hipotese de pintar a chance de encontrar algum louco – e quando le-se louco tambem deve se fugir do esteriotipo de gente muito louca por fora, mas careta por dentro – que de conta do recado e nao se assuste tanto com os meus  desvios de padrao.

Sou assim. Aprendi a ser autosuficientemocional numa epoca terrivel e solitaria de minha pre-adolescencia. Desde la, sozinho, comecei a me proteger construindo muros, porque ninguem gosta de se ferir. Terminei fechado em paredes altissimas, ensimesmado, guardando dentro delas algumas doses de rancor, de sede de vinganca e vontade de cuspir na cara de alguns. Mas nunca permiti que essa bagagem se transformasse em amargura e aprendi a alquimia de forjar essa materia em algo que me fortalecia, como alimento pra ser melhor e mais forte. Ate que cheguei la. La onde encontrei o conforto da pos batalha junto de um banco e decidi repousar e tirar proveito da condicao estavel. Mas no descanso comecei novamente a pensar. Era minha verdade inicial que estava se colocando a prova. Sera que nao valeria a pena abrir os portoes e deixar entrar um pouco mais de vida, de cor, de falta de controle, um pouco de inesperado, de humanidade e drama? Sera que nao valeria testar o que eh esse amor que se fala, deixar alguem tocar meu coracao e descobrir se vale a pena? Ai resolvi me jogar no desconhecido e testar tudo isso; e tenho tido um trabalhao pra deixar o antigo e encarar o novo com integridade. Tive por muitas vezes vontade de fugir e voltar a ser soh e livre, ja que pra mim eh muito mais facil ser feliz sozinho – com otimos amigos eh claro. Mas a medida que o tempo passa e voce eh aceito como eh, e voce pode compartilhar suas loucuras mais absurdas e ainda assim nao toma um chute na bunda, vc sente que pode confiar mais; ai voce sorri, desaperta as amarras e comeca a se sentir que nao esta soh; e essa sencasaozinha de aconchego, de ter um ombro diario, de compartilhar coisas e bobagens eh muito boa, mas confesso que ainda estou longe de poder me atirar nesse precipicio sem paraquedas. Nesse ano, percebi que amar eh tambem se enfraquecer individualmente pra se fortalecer a dois. Sinceramente ainda nao sei se eh isso que eu quero.

 

 

 

 

Eh, as bochechas caem. Um dia voce todo mundo entende isso.




Sempre achei que os velhos ja nasciam velhos; minha voh sempre foi minha voh e como voh sempre foi velha, pq vos geralmente sao velhas. Jamais havia olhado pra os velhos, esses que a gente cruza na rua andando com as maos atras das costas, como pessoas que um dia tivessem sido jovens, orgulhosos do proprio corpo, vaidosos, atras de sexo como animais. Sempre julguei os velhos como velhos sem imaginar que por tras daquela cara enrrugada e daquele corpo desfalecendo poderia haver uma mente jovem, um espirito pulsante. Nunca dei a chance deles me mostrarem o contrario. Que preconceito! 

Agora, minha mae e meu pai que sempre foram minha mae e pai, viraram avos e nao sao assim, pra ser benevolente, tao jovens como antes. Cheguei a conclusao que minha mae e meu pai estao envelhecendo e um dia vao morrer. Nao tinha pensado nisso antes. Nunca tambem havia pensado de verdade que um dia eu mesmo envelheceria. Tinham me dito isso um dia, mas nao dei bola, mal acostumado que era, eterno adolescente, cara de muleque, barrado na porta da boate aos 25 pra apresentar carteira de identidade.
 
O espirito de muleke continua aqui, mas o tempo passou - to na minha primeira crise de idade, talvez atrasado aos 35. Sinto minhas bochechas caindo, olho meus fios brancos todo dia no elevador com aquela lampada fria horrorosa que os realca e faz gritar nos meus olhos as primeiras marcas na minha cara. Lampadas frias sao impiedosas e deveriam ser banidas do universo.

As veses penso nos velhos que sempre julguei velhos e imagino que um dia tambem serei julgado apenas pelo meu corpo decrepto, nao pelo que carrego dentro de mim. Por enquanto, adoro tocar meu corpo, sentir meu cheiro e ficar as veses deitado me dando carinho, fazendo meu corpo arrepiar, aproveitando o tempo que me resta com essa pele boa, glorificando todo colageno, toda elastina e todos os hormonios de homem que carrego em mim, antes que o cheiro de velho, de enxofre, tome conta do meu corpo e que eu nao atraia mais os beija flores.

Essa consciencia do tempo que passa nos faz perceber a vida as avessas, nao como "mais um dia", mas como "um dia a menos" a cada dia. Eh esse o poder que tempo passado nos da. O poder de entender a preciosidade de cada momento, a intensidade que devem ser vividos, de saber o que eh importante e a coragem de deixar a opiniao alheia de lado pra buscar o que realmente nos faz feliz. Ja sacou porque os velhos nao tao nem ae pros outros? Pelo menos os que foram espertos pra aprender algo durante a vida, porque tambem tem uma maioria que passa batido.

Life is too short! Ate o anjo Pygar, o anjo alado do filme Barbarella, representande da beleza da juventude morreu esses dias, de velho; sinal que se nem os anjos sao perdoados, o que sera de nos pobres coitados desprovidos de asas. Soh uma coisa eu vou ficar muito eh puto se rolar. Se algum FDP inventar essa pilula da juventude soh depois que eu tiver velho eu mato o desgracado!!

A noite em que boiei

Minha semana tinha sido um tanto sinistra. Saudades, muitas saudades das minhas musas; saudades das tardes no "Mala",  das risadas, da montanha de merda que adoro falar; de implicar com a Marcinha, concordar com a Eva, zoar com a Silvana, ouvir a Drika, me inspirar com a Lya, rir com a Marizinha e ser lambido por todas. 
Na segunda fomos pra praia fazer churrasquinho versao australiana com a "mulecada" da minha sala (acho que vou escrever um post sobre a experiencia meio desesperadora  e engracada de estar no meio da galera de 18); na quarta fui ao cinema 3D assistir U2 na maior tela de cinema do mundo, acreditem; vc poe os oculos e o Bono vem ali na sua poltrona te dar a mao e lamber seu pescoco; depois fomos a um Thai apimentar a vida; comida boa e tal, mas minha mente estava no Brasil, la com as minhas garotas. Ainda eh foda ser eu de verdade aqui: falta vocabulario! 
Continuei a semana tentando me botar pra cima, levantar o astral, focar, mas tava dificil. Pintou um convite pra uma peca de teatro na quinta noite; aceitei desconfiado embora confiante que ja dava pra ousar desse tanto; se rolasse 60% ja tava bom, os outros 40 fazia eu mesmo, do meu jeito; costurava o resto com meus proprios neuronios. 
Jantarzinho japones pra comecar, o povo falando sobre as viagens que fizeram, profissoes, etc, e eu, como sempre meio quieto, mais ouvindo que falando; um exercicio que forcadamente faco cotidianamente por aqui. Fomos ver a peca num teatro desses alternativos, que vc fica colado no palco junto dos atores. Abrem-se as cortinas e achei que dava, mas em 5 minutos ja havia perdido o fio da meada. Caralho!! Passei os 90 minutos seguintes pensando na vida, no que eu estava fazendo nessa porra de pais, longe de minha familia e de meus amigos. Aquilo pra mim foi meio que o limite de tao revoltante, boiar daquele jeito eu nao esperava. Mas por incrivel que pareca, algo aconteceu e nesses 90 minutos e, pensando em tudo o que rolou pra eu estar aqui, saquei que realmente Sydney eh o meu lugar agora, e que minha melhor arma pra lidar com tudo isso vai ser o bom humor, a risada de mim mesmo; talvez seja essa a licao do momento. Acordei hoje com um pique danado, com vontade de aprender, de tocar meus projetos e com um pouco mais de consciencia de que tudo leva tempo e demanda investimento, foco e disciplina .... Ai Ai!

A tarde em que usei pela primeira vez um oculos de sol.

Hoje vi um moleque no ponto de onibus, uns 4 anos, oculos de sol na cara, a mae do lado olhando passivamente ele a brincar consigo mesmo, olhando pros movimento da cidade e fantasiando coisas na sua viagem propria, falando sozinho, pulando e rindo. Parecia um adulto resolvido, em seu mundo particular, nem ae pro resto. Me lembrei da minha infancia, adolescencia e todo o processo que vivi pra chegar aqui onde estou. O quanto me transformei, o quanto nao quis ser o que quiseram que eu fosse, o quanto batalhei pra mudar coisas minimas que as veses parecem tao faceis na pele de alguns outros, pra conquistar certo conforto dentro de meu corpo, aceitar minhas estranhezas e estar cada vez mais proximo de mim mesmo, como o muleque parecia estar.
A gente as veses olha algumas pessoas e julga, a distancia, o quao mais facil eh o caminho, o quao mais natural e espontanea eh a trajetoria da vida pra elas. Alguns parecem que ja nascem com estilo, sabendo quem sao e a que vieram. Pintam o cabelo de verde e saem pra vida. Pra mim, sinto que tudo foi muito mais batalhado, cada milimetro, cada tijolo a demolir e a reconstruir, mao de obra que nunca acaba. Pessoas que comigo convivem se assustariam em saber o tamanho da timidez que tive, do sentimento de inferioridade, da vergonha de entrar em lojas pra comprar coisas, o frio na barriga que me deu quando pela primeira vez usei um oculos de sol, quando nenhum dos meus amigos ainda usava, pra fazer o primeiro furo na orelha, ou quando o professor de quimica me chamou pra ir em frente a classe e eu recusei envergonhado, me achando magro, feio e com medo do julgamento de uma classe de adolescentes impiedosos, que quando perceberam minha fagilidade nao demoraram a se aproveitar dela.
Ate aqui foi uma longa batalha, aprender a lidar com tudo isso e me construir com todas as minhas diferencas, inclusive uma que naquele tempo pesava mais que pesa hoje, a questao da sexualidade a qual soh fui testar de verdade depois dos 20 e tantos. 
Esse razoavel conforto que sinto hoje nao caiu do ceu em minha cabeca; nao nasci seguro; minha composicao familiar talvez nao tenha sido das melhores pra formacao de um ser equilibrado (nunca culpei meus pais por seus erros, nem nunca o farei, pois ninguem consegue dar alem do que pode, e eles sempre fizeram o maximo pra me dar o melhor que podiam. Soh posso me orgulhar deles, como o faco) e pelo fato de morar em uma pequena cidade do interior o que , apesar de algumas vantagens, dificulta o processo de individualizacao, pelo julgamento constante dos que ficam na janela ou nas esquinas observando e falando sobre  a vida alheia. Por tudo isso me considero um batalhador, um consntante e incansavel batalhador, que sempre quis mais, que sempre quis se aproximar de sua verdade  e de um conforto interior integro, nao de fachada; pra mim, nao pros outros. 
Ainda ha uma boa caminhada pra chegar onde quero; o mais dificil e amargo da ficou pra tras; mas ainda faltam ajustes, muitos. Sera que um dia vou me contentar com o que sou. Espero que sim, pois as vezes sinto que estou cansado.

Imigrantes na sua propria terra

Este texto recebi essa semana de um amigo que conheci pelo mundo, hostels da vida, lisboa, lux, noitada no bairro alto, e depois reencontrei aqui, agora, 2 anos depois. Tambem ja passou, ja foi pra outro canto.... mas suas palavras poderiam sem minhas e os sentimentos igualmente .... segue

"putz... sabe aquele verso do renato russo "já morei em tanta casa que nem me lembro mais"? pois é... mais ou menos assim... é isso aí mesmo... uma vez que você sai do seu país e vira imigrante, assim o será pra sempre, meu bem! não percebeu ainda?! e tudo indica: você nunca mais conseguirá se juntar inteiro completo em algum lugar todo do planeta... sempre haverá aquela sensação incômoda e perene de que alguma coisa está faltando, uma saudade apertada no peito, um nó de choro contido na garganta e uma música de fundo como tema... alguma coisa que você curtia muito, mas que jamais existirá no outro lugar que você, seguramente, estará depois... o som de um samba caminhando pelas ramblas... ou uma torre do gaudí no meio da paulista... serão pra sempre coisas mutuamente exclusivas e só poderão se juntar de alguma forma em algum quadro do dalí... dali, daqui, de lá pra todos os lugares... já cansei de NÃO me acostumar a chegar, me adaptar, ficar, enjoar, ir embora e me despedir, pra chegar de novo em outro lugar, e me adaptar de novo, e etc, etc, etc... tudo novo de novo... mas assim é que a gente vai conhecendo, não sei pra quê, mas conhecendo. conhecendo, transformando e e—x—p—a—n—d—i—n—d—o... como a vaca profana do caetano. ou como vacas de presépio... tenho coisas minhas guardadas em barcelona. malas cheias de roupas em sydney. livros, quadros, fotos, cds e memórias encaixotadas em são paulo. um namorado espanhol na nova zelândia. um amor paulista no brasil... e amigos em literalmente todos os continentes, gente que eu nem vejo mais, mas que estão aí, todos aí. passaram e deixaram suas marcas, indeléveis. fizeram e fazem parte da minha história, cacos de mim mesmo esparramados por todos os lados, separados por todos os mares e oceanos, com dois, três, cinco, quinze fuso-horários de distância, num mundo que ficou pequeno e distante... que vem e chega. vai e volta. passa... eu lá sei quem eu sou! só sei que eu estou adorando essa história de virar gente grande e fechar a porta dos infames 20, fazer 30 e brindar com bom vinho. de preferência um sauvignon blanc.

tim tim, salud!

adriano.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Shakespeare

Noite de domingo, friozinho, sentimentos de domingo, reflexoes pra semana que vem, saudades do Brasil, da minha lingua Brasileira, de ser espirituoso, falar coisas engracadas, entender as piadas mais inteligentes e ser o espertao. Domingos sao sempre assim: dia das resolucoes semanais, um comeco de ano a cada semana, exacerbam nossos sentimentos, fazem do grao uma montanha, e dao vontadinha de chorar. 
Essa coisa da lingua ainda pega muito pra mim. Acho que falta humildade pra me sentar no degrau debaixo, pra nao ser sempre brilhante, pra boiar total, flutuar, gravitar em certos assuntos e em certas rodas. Ate quando vai ser assim? Quando tempo ainda tenho pra me sentar no degrau de cima, dos nativos, dos que nasceram falando essa lingua. Isso me maltrata; ralei 2 horas pra escrever 500 palavras num trabalho da facul, pra essa semana tenho mais 1.500 que vao parecer 15.000. Mas eh assim, ou pelo menos espero, passo a passo, palavra a palavra, erro a erro que um dia talvez deixe de ser tao caricato, menos estrangeiro e possa ser eu mesmo do jeitinho que sou: astuto, pretencioso e fugaz, pra olhar olho no olho, na mesma altura e mostrar a que vim. 
As veses simplesmente me encho e ligo o botao que desliga minha conexao com essa terra, voo pro Brasil no meio de uma conversa qualquer, deixo de estar aqui, vou pros meus amigos, pra minha terra, pro meu rio, pra barriga da minha mae. Os que me conhecem de verdade sabem da minha capacidade de desconectar, os daqui, estao aprendendo, e nao adianta chacoallhar, porque quando eu nao quero, eu nao quero!

Ao Luis Felipe, nossa nova alegria de viver.



Hoje chegou ao mundo meu segundo sobrinho, Luis Felipe; o segundo e tao igualmente esperado bebe dessas duas familias cheias de gente transbordando de amor.  Na barriga um meninao, milhares de idealizacoes, de sonhos de continuidade, de fantasias e de planos para o futuro. E entao la vem ele pra dizer ja no primeiro choro, que os sonhos sonhados deverao ser reajustados, demolidos, para serem reerguidos de outra forma, com outra textura e em diferentes tons.  Esse sonho tambem era nosso: tios, primos, avos, bisavos, mas o Felipe chegou pra mostrar que eles podem ser diferentes, que mudancas de rota acontecem e que as veses o medo do desconhecido parece maior do que realmente representa. 
Demolir sonhos desse porte nao eh tarefa simples, nao se faz do dia pra noite, eh preciso tempo pra se fazer o reajuste interno e eh preciso sobretudo deixar a dor doer, porque sonhos no chao doem mesmo e nao ha outra saida senao senti-la. Mas tambem me alivia saber que esse eh o pior momento de todos; e que daqui pra frente, olhando pros escombros, vamos juntar os pedacos e comecar a reconstruir um novo sonho, diferente; personalizado ao Felipe. Tenho a certeza de que ele vai nos ajudar muito, vai nos fazer ver as coisas de uma outra maneira, vai nos dar presentes diarios, nos conquistar e nos tornar melhores pessoas. Basta ver o que acontece em todos os lares onde eles estao. Felipe, seja bem vindo ao mundo, te agradeco antecipadamente pela contribuicao que vai dar a todos nos como seres humanos. O tempo dira. A voce, amor nunca vai faltar. Te amo desde ja.

resumao de tudo

Pra nao esquecer e ler todo dia!

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses.

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

           

Fernando Pessoa
(Odes de Ricardo Reis)

10 x 160

O trabalho enobrece o homem. E cansa pra caralho! Cheguei em casa da minha segunda noite de trabalho. Agora sou bar-man, especialista em cafe e quase convencido que nao sou assim tao destastrado. Mandei pro lixo apenas 4 copos em duas noites; o que eh uma boa media pra um pupilo. Arrumei emprego no mesmo dia que comecei a procurar. Uma olhada rapida na net, tres telefonemas, uma entrevista, um teste e to la eu no meio da italianada; um monte de garotos curtindo um  tempo na Australia, dando um trampo de garcom e vivendo muito bem. O trabalho enobrece o homem sim; principalmente quando vem acompanhado da melhor parte: dindin! Duas noites, 10 horas no total, varias duzias de copos pra lavar, 360 dolares arrecadados. Faz bem estar num pais onde todos sao respeitados, nao importa quais sejam suas funcoes. Com 350 dolares, ou seja, 10 horas de trabalho semanais, da pra morar, comer e ter alguns luxinhos basicos. Em 10 horas ganha-se aqui o que um mesmo trabalhador no Brasil ganharia em aproximadamente 160 horas de trabalho. Pouquissima diferenca! No Brasil, ou voce eh Top ou tah fodido! O Brasil ainda nao aboliu a escravidao. 

Cocaina Natural.

Essa semana foi incrivel; dura, implacavel, nada facil. Mas eh incrivel como sao dessas coisas dificeis que a gente extrai aquele suco que a principio parece amargo demais pra provar, que depois de um tempo fica mais facil de digerir e no fim pode ate ter um gosto bom. Assim como as veses eh da lama que nascem as flores mais belas, ou eh da merda que cresce o cogumelo magico; geralmente a solucao pra nossas noias, pros nossos tormentos, saem direto das profundezas mais escuras do nosso ser, do lugar onde o medo se esconde, do lugar que a gente evita chegar perto, porque ele eh escuro, ele fede e la tem um espelho poderoso onde podemos nos ver com a clareza que nunca nos vimos. Eh preciso coragem. 
Quando o bicho pega, quando preciso saber a verdade, quando quero entender o que realmente eh importante pra mim, eh pra lah que eu vou; fazer uma visita intima com o espelho magico e olhar pros meus demonios. Essa semana, olhando pra eles, tive a contestacao de algo que ja suspeitava: nossa limitacao eh sempre do mesmo tamanho dos nossos medos. Sao eles que nos impedem de chegar onde queremos, de realizar o que sonhamos, de sermos o que desejamos ser, de termos liberdade pra experimentar o novo e para, quando for preciso, implodir os sonhos que construimos, olhar pros cacos no chao e perceber que existem outras tantas possiblidades, tantos outros caminhos, e que e o essencial eh nao se maltratar por muito tempo por causa dele, esse mesmo que nos torna pequenos, apegado a migalhas, a uma seguranca que sonhamos ter e que eh ilusoria. Nao ha nada mais seguro que viver dia a dia carregando na mochila, mesmo que num bolso interno escondido, a possibilidade da casa cair, de voce contar apenas com voce, e de ter a confianca de que voce pode, que vai sobreviver e ser feliz, porque voce sabe o que importante pra ti. Essa eh minha cocaina natural.

5.475 dias numa noite

Na segunda comeco o primeiro dia dos meus 35 anos e confesso que ainda acho bem estranho. Quando tento lembrar de tudo o que rolou nesses 35; os flashs da primeira infancia, escola, escolhas, o primeiro gozo, a espera pelo fio de barba que nao vinha, adolescencia tumultuada, chopp xodo, pinga com fanta uva, bailes do gremio, boias coloridas com spray, a ansia de ter dezoito, vinte, vinte e dois, vinte e oito, quanta festa, festa, festa, rolar no chao, tudo, todos, tanta coisa, tanta gente, embaralhada, junta, colada, tudo isso de que fui feito, parece tanto e ao mesmo tempo tao pouco, muito pouco. Desde meus 20 ate segunda, couberam 5.475 manhas, tardes, noites e muitas madrugadas dentro de mim; muito tempo quando se olha pra o amontoado de coisas feitas empilhadas na memoria, muito pouco quando se ama a vida e se quer extrair tudo dela, sempre. Quinze anos passam numa noite e ai voce acorda pro seu aniversario de 35, se olha no espelho e ve os primeiros vincos, se arrepende do sol que tomou, olha pros fios brancos (melhor olhar pra eles que pra falta deles), sente que voce cabe no seu corpo melhor do que nunca, mas agora, voce sabe de uma verdade que nunca antes pensou; que o tempo passa, tem a consciencia de que cada dia eh ainda mais precioso, e esse conhecimento machuca. A vida eh injusta na sua essencia, nao apenas injusta mas impiedosa. Envelhecer nao deve ser nada facil, esses primeiros sinais ja me dao a medida de como deve ser foda, fico olhando pros velhos na rua, pros seus pescocos enrrugados, antebracos cheios de feridas do sol, sinto o cheiro de gente velha, seja do corpo, seja do eterno perfume doce que imagino encima da penteadeira, como na casa da minha bisavo. Porque elas nao usam ao menos um perfume de gente jovem pra enganar, disfarcar? Melhor parar por aqui, afinal tenho apenas 34. Ainda da tempo pra ir a farmacia comprar um anti sinais e aproveitar esse dia, que nunca mais voltara, ou entao ligar pro Dorian Gray e pedir a receitinha. Alguem ai tem o contato?

Nos trilhos e em frente.

Faz um tempo que nao escrevo; meio corrido e sem tempo, coisa que nao estou acostumado depois de longos anos de dolce vita, acordar sem despertador, soneca depois do almoco, longas noites na internet e sem desafios pra correr atras. As impressoes da quarta semana na facul sao ainda impressoes, sem muita certeza do que tah rolando, do meu papel no grupo, de como sou visto e de como me sinto com relacao a tudo. Algumas dicas ja tenho de que os meus 14 anos a mais, em media, devem fazer alguma diferenca. Me sinto melhor dentro de mim, mais relaxado pra brincar, ousar e ser eu mesmo. Anos de luta interna pra se autoconhecer valem pra alguma coisa. Nao sei se assusto ou se agrado ou talvez ambas as coisas, mas o fato eh que nada me abala muito; continuo no meu trilho, eu mesmo assim como sou, pois nao ha nada que honestidade, respeito, vontade e bom humor nao vencam. A lingua ainda eh uma grande barreira, tenho que fazer muita forca pra me expressar e outra do mesmo tamanho pra passar por cima da meu orgulho de falar errado, de nao ser perfeito. Belo exercicio pra mim. No fim, tudo se encaixa, tudo eh um grande aprendizado, o tecnico, o humano, os relacionamentos, tudo, pra ser experimentado e renovado. Novamente.

Bixo again

Primeira semana de facul. E nao poderia ser melhor do que foi. O arrepio na espinha do primeiro dia na expectativa de conhecer os que me acompanharao nessa jornada pelos proximos tres anos. Talvez a mesma inseguranca de 15 anos atras quando fui bixo pela primeira vez. Sera que vou dar conta? Sera que vao gostar de mim? Trinta alunos do curso de Communication Design, 50% Ozzies (australianos) e o restante de pessoas do mundo como eu. Dividiram o grupao em 3 grupos de 10. Meus companheiros de sala razoaveis a primeira vista, 5 ozzies, um Sueco, um Ingles, uma Thailandeza, um Koreano e eu representando nosso Brazzzzzzil. Confesso que as veses cheguei ate a achar que sou timido, mas nao sei nao. Conheci a galera rapidao e em tres dias ja estava tomando cuidado pra nao aparecer demais, passar por cima que nem rolo compressor, enfim, to exercitando ouvir, dividir, juntar, particpar e ainda assim ser eu mesmo, com meu Ingles parco e as maos sempre falando junto com a boca. Um dia parei e perguntei: galera, voces estao me entendendo? Tropeco, engasgo, dou uma volta imensa pra as veses falar o basico, mas jamais me calarei! Esse sou eu!
Estou achando que dessa vez acertei. Estou fascinado pelo curso, pela faculdade, pelo ambiente em geral, pelos professores e pelo compromisso de todos para que nao sejamos apenas otimos estudantes, mas excelentes profissionais preparados para o mercado. Facil nao vai ser. Vou ter que ralar muito porque la o bixo pega. Mas pela primeira vez nao ha nenhuma materia que eu queira fugir pro bar. Trouxe pra casa 20 kilos de material, papeis, canetas, canetinhas, canetoes, lapis de tudo q eh jeito, pinceis, tintas, tintas e tintas. Vamos fazer muita arte este semestre. Quatro horas de aulas de desenho, quatro de tecnicas de ilustracao e pintura, as aulas de tecnologia pra aprender de verdade tudo que tem na serie Adobe, introducao a propaganda, introducao a tipografia, tecnicas de criatividade, hablidades de studio... enfim uma porrada de coisas que eu to fascinado. Quando vejo o trabalho dos alunos do segundo fico pensando que tambem vou poder fazer aquelas coisas lindas, cheia de conceitos e arte... eu piro!
Essa semana, apesar do meu Ingles de merda, crei o slogam que foi escolhido pelo grupo, numa de nossas atividades de classe. Fiquei feliz. E mais feliz ainda quando a professora me chamou de lado e falou "Renato, guarde esse segundo slogan q voce criou porque ele eh muito bom e voce pode usa-lo no segundo semestre".... caralho!! Demais!!! Outro mundo, outros valores, outras culturas, outros tipos de relacao. Vou crescer pra caralho! Tesao!

Caipirinha com coxinha de galinha


Noite de terca, Cibelle acariciando meus ouvidos - adoro este CD;  cidade linda como sempre; colorida, o mar calmo e a lua daquelas de sorriso flutuando em cima de tudo. Minha amiga Kate e sua mae estiveram aqui; jantamos: caipirinha e coxinha de galinha especialmente preparada por mim - mais facil preparar do que ensinar ela a falar coxinha de galinha- momentos bons; curtimos as fotos do carnaval no Rio, Petropolis e Minas, da viagem pela Italia, da minha terra de Brotas e do meu rio. Amigos por perto fazem a diferenca. Minha forca esta voltando; eh, aquela mesmo que voces conhecem, aquela que me faz ser quem eu sou, aquela forca espalhafatosa, que me da vontade de realizar, de olhar pra frente, de acreditar e de sonhar. Estou muito animado com a facul que comeca segunda, com tesao pelo meu Macbook novinho em folha e adaptado com a ideia de ter pago, pela primeira vez na vida, por um software ao inves de simplesmente copia-lo do vizinho - comprei toda a colecao Adobe CS3 que vou usar nos tres anos de bacharelado. Melhor entrar no jogo respeitando suas regras. Pesquisei hoje na internet as vagas pra area de Design Grafico aqui em Sydney e fiquei Feliz com as 230 vagas disponives e com o quanto estao pagando. Porra, quer dizer q se eu estivesse formado poderia escolher entre 230 lugares pra trabalhar? Eh bom sonhar, mas melhor mesmo eh pensar dia-a-dia, porque eh nele que temos que ser felizes eh nele que construimos os sonhos, passo a passo. Amanha eh outro dia, e eu vou dormir ouvindo a Cibelle - pra quem nao conhece tah ae a dica - quem sabe hje nao sonho que estou voando.

Gosto mais dos textos quando estou triste :-P

Sonhos, cracas e traumas


Acordei de um cochilo de 3 horas de domingo a tarde; cara amassada e coberto de cracas que se impregnaram em mim enquanto eu dormia.  Elas vieram pela corrente dos meus sonhos e se aproveitaram da minha quietude pra se depositarem no meu corpo mais uma vez. Que tipo de banho eu preciso pra me limpar, tirar essas cracas, essas lesmas do passado de minha pele, do meu ser. Oito em cada dez sonhos que tenho sao assim amargurados, revelando quase sempre impotencia ou culpa; sentimentos do passado que nao cabem mais em mim, ou que ao menos eu nao gostaria que coubessem. A gente muda, junta os cacos e se reconstroi e as cracas nao desgrudam, resistem. A velha batedeira de bolo com a tigela cheia de massa fofa a passar cremosa entre os garfos giratorios, onde estou eu a nadar deliciosamente contra a corrente, sentindo a suavidade da massa em minha pele, ate que sempre e derrepente nao tem mais massa fofa; eh limalha de ferro, ferro com ferro, ferro com garfo a retorcer no meu corpo. Acordo. (relato de um sonho recorrente nos meus tempo de crianca).
O primeiro grande trauma de todo ser humano eh o nascimento; a felicidade perfeita do utero materno, quente e pacifico, derrepente se esvai; o frasco se quebra e o aconchego mais perfeito que pudera existir acaba; a massa fofa se transforma em limalha; o mundo nos eh apresentado da forma mais chocante possivel: abruptamente, sem aviso previo; carregamos esse trauma pra sempre. Quando tudo esta perfeito sentimos que vamos ser paridos novamente, que algo vai dar errado, que a felicidade vai acabar: o trauma do medo da felicidade.
Tudo isso que me recorreu esta tarde, os sonhos maus, as cracas todas, areia movedica, falta de forcas nos bracos ou pra correr, o soco que nao sai, o grito inaudivel, rouco, tudo isso nao combina com este mar aqui a minha frente, com este horizonte cor de rosa, com este ar refrescante, com o amor que tenho recebido. Quando vou conseguir limpar de vez as minhas cracas e perder o medo de ser feliz? Talvez seja preciso acostumar-se com a ideia de que nascer, diariamente, nao doi tanto assim. E que pensar tanto nao vale tao a pena.


Vou soltar a minha Nega (parafraseando um amigo)

Vi o Brasil no National Geografic ontem a tarde. Um documentario sobre uma garotada da rocinha que surfa pra escapar da violencia e da vida no crime. Fiquei pensando sobre meu pais; fiquei pensando o porque disso tudo: de um lado a miseria, a desigualdade social absurda, a robalheira. De outro, um povo rustico pra aguentar os trancos da vida sem nem por isso perder o jeito afetuoso e pacifico, o sorriso mesmo que banguela e a alegria de viver. De onde veio tudo isso? qual a razao pra ser assim dessa forma?  Vontade de entender melhor o meu Brasil, minhas raizes, minheu sangue; e quem sabe por ai entender melhor a mim mesmo. Se me diferencio e como me diferencio dessa gente aqui. Sera que meu rebolado pode fazer diferenca?
Procurei um documentario fantastico baseado no livro O povo Brasileiro de Darcy Ribeiro e ironicamente resolvi estudar um pouco sobre o Brasil soh agora que estou tao distante. Como essa amalgama unica de racas produziu esse povo, essa cultura, essa sociedade, essa criatividade, esse fogo, isso tudo que tem dentro de nos, dentro de mim. Como encontrar e deixar fluir essa inventividade que nos faz diferentes de tudo o que ha no mundo? Como transformar essa carga genetica e historica em algo produtivo, belo, original e que contribua de alguma forma pra melhorar esse mundo sem tesao. Como fazer do meu rebolado, do meu pe descalco no chao, da minha infancia em cima das arvores, da minha alegria festiva e descompromissada, a minha assinatura? Em uma semana meu curso de artes comeca. Definitivamente eu quero encontrar um meio de fazer disso, dessa brasilidade que soh nos sabemos o que eh, porque soh nos a sentimos na alma; a minha expresao, a minha marca , o meu diferencial.

Boa sorte Brasil, que voce precisa.

Encomendei 2 livros pela net: "O povo Brasileiro" e " Grande Sertao Veredas" . Alguem ai ja leu e pode dizer algo?

Meninos nao choram

As veses quero chorar mas nao sai. Faz tempo que eh assim; desde quando tive que aprender a ser durao pra dar conta das coisas. Criei entao meu jeitao de manter tudo sob controle, pra evitar altos e baixos, emocoes mais fortes, sofrimento desnecessario. Botei uma tampa nem eu sei onde pra tampar o choro, numa visao pratica de que lagrimas nao resolvem as coisas e que ha outras tantas mais objetivas a se fazer pra se resolver o problema. Hoje ele vem em media a cada 2 anos quando a situacao eh realmente foda. Me lembro o quanto eh bom o choro daqueles de soluco, que lavam a alma e o ombro alheio e que depois trazem uma calma imensa e a vontade de gargalhar da situacao. Queria chorar mais facilmente. Denovo a pergunta: alguem sabe onde fica a tampa? Aqui estou, agora dando passos no caminho inverso, o caminho da humanizacao, de abrir as portas, os chacaras, deixar entrar, injetando arte na vida, lidando com os bixos ao inves de varre-los pra debaixo do tapete. Mudar a si proprio eh tarefa ardua como mudar a forma do tronco de uma arvore ja adulta. Talvez seja obsessao minha essa compulsao em sempre querer evoluir, mudar; mas faz parte de mim; sou meio viciado nisso. Um longo caminho ja percorri e ha sempre novos, ate quando eu me cansar. Pra mim, evoluir eh uma das razoes de se viver.

Há que penar no amor, pra se ganhar no amor

Acho que nunca amei ninguem. Dizem que nao sobra pois dou tudo pra mim. Se eh verdade nao sei, mas o fato eh que amor desses que se comete loucuras, que se da bofetadas, que se chora, que se mata, que se tem medo de perder, que se perde o chao, essa dependencia de outro ser nunca rolou comigo. Lembro-me de uma ocasiao que doeu muito perder, gritei, perdi o sono e depois percebi que a dor era mais do orgulho ferido de ter sido trocado que da perda em si. Ja paixoes, tive varias, incontaveis, algumas com apenas alguns segundos de duracao, outras suficientes pra me levantar a 2 metros do chao em levitacao. Sempre se foram com a mesma volatilidade que vieram, pra dar lugar a seguinte, porque a fila sempre anda. Tambem, se for pra dar bofetada, pra perder o controle, fragilizar, nao sei se quero nao.
Minha visao sobre o amor eh inventada como a da maioria, talvez menos utopica, mais fria como eh particular. Sempre pensei nele como algo mais pacifico que intenso, mais morno que gelado ou em fervura. Pra se amar eh preciso mais do que tudo querer amar, construir o amor, dia a dia. Amor nunca caiu na minha cabeca. Amor a primeira vista, alguem ai ja teve?
Amor da trabalho, mais facil estar soh, nao dar satisfacao, ficar triste sozinho, sofrer soh, se enfiar no buraco e apenas sair quando passar. Nao estou acostumado a dividir meu mau humor. Dividir alegria eh mais facil pra mim: sorrisos, abracos e beijos. Dia a dia eh outra coisa, me assusta e quero sair correndo. Parece que sempre me amam mais do que eu amo. Quem sabe um dia eu chego lah.